*Ilustração: Pintura do artista Anónimo de la Piedra

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

E se eu morrer amanhã?


(Artista: Amanda Cass - Swept off my feet) 


Se eu morrer amanhã, quero que os pássaros cantem o despertar da luz, como fazem todos os dias.

Se eu morrer amanhã, quero que meus amigos tenham suas vidas com mais alegria, com mais leveza;
que aqueles que eu amo tenham conhecido meu abraço, e um pouco de mim.

Quero que o vizinho abra a janela na mesma hora de sempre;
que a cafeteria da esquina sirva seu café perfumado;
que os carros ainda congestionem as ruas;
que as músicas que eu gosto ainda toquem nas rádios.

Se eu morrer amanhã, quero que algum desavisado não se perceba da minha ausência;
que alguma criança ria de qualquer coisa tola que eu tenha feito, com toda sua inocência.

Quero que meus gatos continuem espreguiçando seus corpos com delicadeza;
que o céu se faça azul, e as tempestades ainda surpreendam as pessoas.

Se eu morrer amanhã, quero saber que disse tudo o que queria, todos os "eu te amo" que sentia;
que doei meu sorriso, minha conversa, meus colo e minha alma a quem caminhou comigo, ainda que por um instante.

Se eu morrer amanhã, quero que alguém tome conta dos meus bichos;
que fechem minha conta de e-mail, meus blogues e o facebook;
e não quero que cerrem as janelas da minha casa, sempre gostei delas abertas à claridade e ao vento.

Quero que doem minhas roupas, meus órgãos, meus tecidos, menos as minhas córneas, que não servirão para nada.

Se eu morrer amanhã, quero saber que cada amigo meu tenha certeza da sua importância para mim;
que minha família saiba o quanto a amo, e o quão lhe sou grata.

Quero que as árvores frutifiquem como todos os anos;
e as flores desabrochem na estação certa.

Se eu morrer amanhã, não quero memórias póstumas;
que o vento se encarregue de espalhar pelo ar o que eu deixei;
porque, se eu morrer amanhã, sei que não levo dívidas, nem pendências, não devo nada à vida, nem ela a mim.

Se eu morrer amanhã, vi o que precisava e, ainda que hajam coisas sem fim a se fazer, nenhuma delas me era necessária.

Se eu morrer amanhã, quero que saibam que eu fui feliz, que fui eu mesma, e paguei o preço disso;
que não me corrompi, e ainda que me perdendo pelo caminho, sempre segui minhas verdades, e as suas transitoriedades, como toda boa verdade deve ter.

Se eu morrer amanhã, quero que saibam que subi todas as montanhas que encontrei, e me lancei do alto delas, toda vez, sem medo ou culpa;
que mergulhei em todas as águas que me chamaram, amei sempre que meu coração pediu, sem pudor;
que derramei todas as lágrimas que tinha, sorri  com vontade, sempre gozei de verdade e já chorei de rir.

Se eu morrer amanhã, entendam que eu vivi à flor da pele, que fui sempre inteira, verdadeira;
que muitas vezes morri, e em algumas me deixei matar, mas sempre renasci, melhor e mais feliz.

Se eu morrer amanhã, lembrem-se de que eu vivi e que diante da vida, essa é a única decência que importa.




[Andrea de Godoy Neto]

16 comentários:

  1. [haverão de morrer muitos amanhãs, mas a tua urgência é a vida, essa viva nascente que abriga o equilíbrio da palavra, escuridão e luz, de igual modo e em perfeito equilíbrio!]

    um imenso, imenso abraço, Andrea

    Leonardo B.

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    1. Leo, amigo querido, a vida me basta contanto que plena... dar-me a ela é tudo o que posso, e o mínimo que ela exige para ser inteira em mim

      Tenho certeza de que, isso, sabes melhor do que eu... posso ver tua alma do lado de fora da tua pele.

      imenso abraço, querido poeta!

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  2. "Se"eu morrer amanhã,entendam que muitas vezes morri,e em algumas me deixei matar,mas sempre renasci,melhor e mais feliz.
    Lindo Dea,mas prefiro vc sempre assim, guerreira porque tu és linda tanto quanto a propria vida..

    beijos,GAGAU

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    1. Gagau, sou imensamente grata pelo teu carinho, pelo apoio,

      A vida é tão maior do que nós, e ainda assim, nos cabe. Acolhê-la por inteiro e sem covardia é o mínimo que devemos, não é?

      beijos

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  3. Não tem muito o quer dizer depois da leitura, apenas que se fosse eu, gostaria de ter escrito exatamente a mesma coisa. Mas não sou assim privilegiado, o privilégio que me resta é ler. Um beijo.

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    1. ah, Dario, até parece que tu não escreve coisas muito melhores...rs

      ainda, assim, agradeço teu carinho de sempre. O privilégio é meu, pela tua visita.
      beijos

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  4. se cê morrer amanhã, ou depois de amanhã ou seja lá quando for, vou chorar pra caráleo. choro de irmão mais novo (mesmo sendo o mais véio de todos os seus irmãos...rs)...

    gosto de vir aqui. nem sempre comento, porque sou um orêia.
    deveria participar mais.

    participarei.

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    1. ô, pessoa, eu não escrevi que não quero que ninguém chore? ah, não foi neste, foi num texto anterior...rsrs...já ando confundindo os textos, eita!

      enfim, quero choro não, quero é música, sorrisos, vida... o bem-querer em movimento...


      tu é mais do que bem-vindo, sempre! privilégio meu tua presença
      um beijo

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  5. Se você morrer amanhã, subo ao céu pra te buscar, peste, que ele tem anjos demais e a terra de menos.
    Nem me fala que a beleza das palavras me assusta tanto quanto a foice da morte.
    Fica viva, que os mortos não fazem poemas.
    beijosssssssssssssssssss

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    1. Não fazem não, Lelena? ahh, então não quero saber de morrer, que morte sem poesia é insossa...

      olha, fiquei aqui me achando por saber que tu iria me buscar :))

      mas, se preocupa não, fico aqui ainda por um bom tempo... e a gente tem o blog pra montar... e eu adoro a companhia dos amigos...
      e eu adoro você!
      beijocas muitas

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  6. Mary, linda é você! linda como delicadeza da música e a majestade do voo da Araruna!

    imensamente feliz em te receber aqui :)

    beijocas

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  7. Confesso que eu nunca pensei o que eu quero para o caso da morte chegar até mim. Fiquei aqui olhando para frente e nada. Não tenho medo. Mas sinto que ainda não estou pronta. rs Acho que é só isso que tenho pra mim no momento.
    bacio

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    1. Lu, ainda bem!!! que haja muita muita vida :)

      beijos

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  8. Andréa!

    Quando alguem que deixa tanto como você, morre, Impossível não morrer em nós que a amamos, a partícula de vida que vivia em nós mas que era você. Intensa e sincera, ÚNICA!

    Se precisar morro em seu lugar.

    Beijos

    Mirze

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    1. Mirze, poeta, amiga tão querida... tuas palavras me sopram coisas tão boas...
      acho que quando a gente morre, nada do que fizemos tem importância, a não ser as almas que tocamos, todo o resto é mundano e efêmero. Fico imensamente feliz por tocar a tua, privilégio meu, todo meu...

      não deixo você morrer no meu lugar não...rs Você é necessária!
      e cada um na sua hora, né? quando vier a minha, me desapego sem tristezas

      beijos, minha querida, muitos beijos :)

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