*Ilustração: Pintura do artista Anónimo de la Piedra

[blog de textos, contos e crônicas]
Porque eu penso muito e
minhas vozes se expressam
em linguagens diferentes...

terça-feira, 29 de maio de 2012

É outono, e eu canto para ensurdecer o silêncio...

(Pintura: Turning Leaves by Duy Huynh



Finda maio e os plátanos se desfolham. Também eu. Também eu me desnudo de cores, de dores e de tempos que me habitam. Quero ficar nua, feito as árvores ao vento e ao relento. Está mais quente do que eu gostaria, e o calor, onde deveria haver frio, me cansa, tem vez que o mundo todo me cansa.

Percorro tantas lonjuras em mim que meus passos nem dão conta. Sou um avesso recortado de distâncias, algumas cerzidas, outras rasgadas em vãos que meus braços nunca alcançam. E eu me canso de tanto espaço sem rastro, de tanto longe aqui dentro.

Canso-me até dos precipícios e dos oceanos, e dos barcos que me levam sempre a um destino contrário. Eu nunca vejo chegada, nem uma pedra onde descansar o corpo, nem um porto onde possa ter qualquer enjoo de terra. Nenhum ninho onde possa ter algum pouso, ainda que de passagem.

Sou muito espaço por dentro, pouco chão, muito vento em horizontes recortados. E me perco tanta vez entre norte e sul que meus pés já não sabem como acompanhar meu coração. Eu também não. Sempre alço voo achando que tenho asas, talvez não as tenha, talvez as tenha roubado de um anjo qualquer que encontrei caído pelo caminho. Talvez por isso sempre me lance rumo ao chão, ou fique presa em algum vão entre o que foi e o que virá, e no silêncio que se faz entre os dois mundos. No silêncio que se faz em mim, e onde todas as vozes me falam e me calam.

Sou recheada de silêncios. E o teu talvez seja o mais ensurdecedor deles, o mais antigo, o que grita em mim com mais perigo, com o sotaque que vou sempre distinguir, mesmo entre todos os gritos. Não quero te ouvir. Não posso. Nem posso calar de novo diante de ti.  Acho que não se pode renascer se morrermos duas vezes da mesma morte. Então, se eu ligar o rádio e cantar bem alto, tu te calas?



"Que reste-t-il de nos amours?
Que reste-t-il de ces beaux jours?
Une photo, vieille photo de ma jeunesse
Que reste-t-il des billets doux,
Des mois d´avril, des rendez-vous?
Un souvenir qui me poursuit sans cesse
Bonheur fané, cheveux au vent
Baisers volés, rêves mouvants
Que reste-t-il de tout cela?
Dites-le-moi
Un petit village, un vieux clocher
Un paysage si bien caché
Et dans un nuage, le cher visage de mon passé"

[Chanson: Que reste-t-il de nos amours - Charles Trenet]






[Andrea de Godoy Neto]

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vender-me? Não, não sei. Era pra saber?

(divination by m0thyyku)



Dia desses uma pessoa próxima disse-me que o meu problema é que eu não sei me vender.
Fiquei mesmo pensando sobre isso. Não sei me vender. Vender. Vender-me. Coisa, etiqueta, rótulo, preço. Consumo. Nesta sociedade em que vivemos somos consumidores, não pessoas, indivíduos, cidadãos. Compra-se de tudo, e de todos. Mas, todos?

Eu sei bem que a pessoa se referiu ao que escrevo, mas nem por isso me senti menos um pedaço de carne na prateleira do mercado. Carne mesmo, vermelha, um pedaço exposto, sem pé nem cabeça, não peixe - embora o peixe morra pela boca, o que pode ter alguma semelhança com quem morre pelas palavras.

Não sei mesmo me vender, não sei.  Jamais seria uma profissional de marketing, e como vendedora eu morreria de fome, reconheço. Aliás, quando adolescente, eu trabalhei por um curtíssimo período numa loja de departamentos, reforçava só aos sábados a equipe de vendas no departamento infantil. A clientela até gostava de mim, faziam bom negócio, eu dizia o que era bom e o que era ruim, o que valia o preço e o que eles podiam achar melhor e mais barato ali mesmo ou em outro lugar. A gerência achou que eu não servia para aquilo, cometi o pecado da franqueza com os clientes e isso não dava muito lucro. 

É, definitivamente, eu não sei vender. Nem vender-me.

Nunca gostei de exposição desmedida, escrevo porque escrevo, e gosto quando me leem, é claro. Gosto da troca que existe quando alguém comenta um texto, um poema, assim como gosto de comentar os que eu leio. Há grandeza em se fazer pequeno diante da obra do outro, em se fazer ouvinte, leitor, quando há nisso sinceridade. Mas me vender, não, não sei. E nem quero saber. Porque, para o que importa, o que transborda em mim, eu me dou. Não sou item da sociedade de consumo, não vou bater de porta em porta pedindo “leiam-me”, tampouco vou correr o mercado, que se faz a anos-luz de distância, eu bem sei, em busca de alguém que avalie se eu tenho valor. Estou errada? Talvez. 

Mas o que me consola é que muita gente, infinitamente melhor do que eu, também não se vende. A propósito, quanto da Arte que conhecemos hoje foi feita por artistas que se sabiam vender? Falo de Arte de verdade, essa que faz a história e traz alguma luz sobre a obscuridade dos homens. E não estou tendo um súbito surto de grandeza e me colocando entre os grandes. Mas pensei em alguns artistas que eu conheço, gigantes na expressão da atualidade, e que não se vendem. Será que este nosso tempo, onde tudo é descartável, terá história da arte para contar? Porque os bons não prostituem suas ideias, ainda que seja para lhes dar visibilidade. 
Ou tudo o que deixaremos para a posteridade é o registro da banalidade que nos consome?

Dizem que os fins justificam todos os meios. Não sei. Penso mesmo que a vida acontece nos meios, os fins me importam menos. Nos meios é que se mostra o caráter, a índole de cada um. Na contramão das explicações simplistas do vale-tudo, para mim os fins não justificam nada e os meios dizem de nós quem realmente somos.

Não, eu não sei me vender. Defeito grave que nasceu comigo. E, sinceramente, eu não quero aprender.



[Andrea de Godoy Neto]




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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Maio


(circul of life by Duy Huynh)




Maio é um mês de tudo. Eu nasci em maio.

Dizem que é o mês preferido das noivas. É o mês das mães, e do trabalho. Maio é o mês de Nossa Senhora de Caravaggio e, por aqui, de romaria dos devotos pelos caminhos de terra cheirando a bergamota. Maio é outono de folhas vermelhas, de céu azul, de frio embaçando a vidraça, é mês de estreia de luvas e cachecóis. Aqui nas serra é tempo de cerração, neblina densa e extensa, que nos engole ou nos abraça, dependendo do nosso humor. Maio é princípio para mim e também o mês em que retorno ao dentro, tão dentro quanto possa me dobrar. Sabes, tem gente que renasce no aniversário, eu retorno ao útero do tempo, me refaço me enovelando no meu próprio colo, e busco pertencimento na vida que me habita. Viro semente em hibernação, sou minha própria terra, cabana, cama para os tempos de frio. Maio precede meus invernos internos, enquanto colore o chão, enquanto cheira a café com licor, fondue e chocolate quente, sopa de agnolini, vinho tinto e fogão a lenha.

Então, quando maio chegar eu não vou renascer, só ficar mais velha. E os galhos desnudos dos plátanos me enternecerão. O céu será azul forte e, em outros dias, todo cinza, e a neblina adensará minha pele e meu peito. Quando maio chegar beberei café sempre quente e forte para me aquecer, usarei meus casacos de lã, os novos e os mais antigos, pois o frio intenso é sempre democrático com a moda. Usarei sempre botas, longas e curtas e, se houver dias de calor, pois sempre há algum calor em dias ensolarados, irei ao parque para ver o verde amarelado do outono sobre a grama. Quando maio chegar, serei de novo semente no ventre do tempo, da terra, na minha própria mente, e me cobrirei de esperas e aquecimentos, cobertores e peles sobre o leito à espera do despertar. Isso tudo quando maio chegar.



[Caxias do Sul, 27 de abril de 2012, para o blog Cartas sem Selo, a convite da caríssima Lu Guedes]



[Andrea de Godoy Neto]






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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ancestralidade


Havia um tempo em que eu caminhava entre brumas como quem pisava nuvens. E eu sabia o meu lugar sobre as terras ancestrais, e conhecia seus segredos, e partilhava de suas dádivas. E meu corpo sangrava e renascia pelas luas. 
Talvez não possas me entender, se tudo o que conheces chegou com o mundo novo. Mas eu não, eu sou antiga. De um tempo em que a terra era feminina e fértil, e não de concreto estéril. Acendi fogueiras, dancei para a lua, para os ventos, para a terra, para os homens. Soube das flores crescendo em sementes e ouvi as vozes das árvores da grande floresta. 
Havia um tempo em que as pedras eram minhas irmãs, e sobre elas me deitei em oferendas. Houve um tempo em que tive Pai e Mãe, e eles de mãos dadas cultivavam, em equilíbrio, a fina casca onde os homens se mantiam de pé.
Mas eu sou antiga, e o tempo de hoje me cega com seu véu. Não, talvez tu não me entendas, teus olhos são cegos de nascença. Mas eu, um dia, enxerguei. Enxerguei entre as brumas que desfaziam todos os véus, enxerguei o mundo, e os homens e suas doutrinas vazias, e seus templos fechados, e as falsas verdades guiadas por seus lampiões vermelhos, desprovidos de sol. E eu sabia, haveria um tempo em que tudo seria esquecido. 
E um dia, no ciclo das vidas, meus pés saíram das brumas e hoje pisam asfalto, e eu morro um pouco todo dia, toda vez, em toda vida, porque já não sei o caminho de casa. 




[Andrea de Godoy Neto]

terça-feira, 3 de abril de 2012

A páscoa da minha infância






Eu sempre adorei a páscoa, talvez porque seja chocólatra desde criança.
Bem verdade que meu pai teve grande responsabilidade nisso. Eu, a filha mais nova e única herdeira de seus cabelos crespos, vivia-lhe a tiracolo.  E no nosso caminho sempre havia uma lancheria ou um bar de onde eu saía com uma barra de chocolate ou uma caixa daqueles chocolatinhos  “refeição”. Era assim também quando ele voltava para casa no final do dia. E eu, como caçula, nunca tive concorrência, os chocolates eram meus mesmo.

A páscoa para mim era sempre uma expectativa. Sim, bem criança eu acreditava em coelhinho, e mesmo depois, já mais crescidinha, quando não fazia sentido coelho trazer ovos, eu ainda assim achava mágica esta invenção. Eu acreditei mais em coelhinho do que em papai noel.  Pois, ainda antes dos meus 5 anos, eu vi meus pais arrumando presentes debaixo do pinheirinho de natal e o papai noel passou a ser apenas uma figura de desenhos animados e filmes do pólo norte. Mas o coelhinho...eu bem pensei que se papai noel não existia, coelhinho não haveria de existir também. Mas eu escolhi acreditar, achava que havia algo de maluco num coelho que trazia ovos de chocolates. Hoje penso que eu gostava mesmo era da subversão que isso representava perante a ordem da natureza. Esse coelho era como aquele da história de Alice, improvável.

Até hoje, ao entrar na seção de páscoa do supermercado, revejo esse mundo mágico. Naqueles corredores, de paredes e teto de chocolate, eu enlouqueço, tenho o desejo de prová-los todos, sim, mas mais do que isto, de provar o encanto que me trazem, o cheiro, os papéis brilhantes, o colorido das estantes, o barulho das embalagens. Gosto de passear lentamente entre eles, tocar com a ponta dos dedos, tão de leve como se eu pudesse lhes causar arrepios. E, de repente, estou de volta à pascoa da minha infância.

A minha páscoa era feita de todas as coisas boas. Eu arrumava um ninho, e ele tinha que ser grande, uma cestinha nuca foi o suficiente, era sempre uma daquelas caixas de papelão que se usavam nos mercados, forrada e decorada. 
A minha páscoa era feita de ovos de açúcar, grandes e pequenos. Aquelas pequenas obras artesanais, branquinhas e tão trabalhadas que dava até pena de comer. Decoradas com florzinhas, coelhinhos, rendinhas. Eu os ganhava em vários tamanhos, eram bonitos, mais lúdicos do que os de chocolate.

A minha páscoa era feita de coelhos de chocolate da Mirabel, que vinham em uma caixinha de isopor e tinham as orelhas maciças. Havia as versões macho e fêmea, numa embalagem tão bonitinha que eu tinha certa dó de abri-los. Não que isso me impedisse por muito tempo, mas eu os deixava por último. Minhas irmãs e meu irmão também ganhavam pelo menos um destes. Eu sempre ganhava o casal.

A minha páscoa era feita de várias outras guloseimas, ovinhos de chocolate, balas, confetes, merengues, bolas e guarda-chuvinhas de chocolate. Ovos de vários tamanhos e pelo menos um ovo grande, daqueles cheios de ovinhos dentro. 

A minha páscoa era feita da espera na véspera, da ansiedade, do sono que não chegava – e enquanto ele não chegasse o coelhinho não vinha – e do despertar encantado no outro dia, com uma caixa cheia de doces e, às vezes, ainda algum brinquedo. Lembro-me de acordar cedinho, eu que nunca gostei das manhãs, para olhar meu ninho e escolher qual a primeira coisa que eu comeria. Geralmente pegava uns ovinhos e voltava correndo para debaixo das cobertas, e o chocolate comido no aconchego da minha cama de criança, no frio do outono, deixou em mim um gosto até hoje único.

A minha páscoa era feita, sobretudo, do desejo dos meus pais e irmãos em preservar o lúdico na minha infância. Sim, porque não eram tempos fáceis, numa família com 5 filhos o orçamento era sempre apertado. Ainda que os mais velhos já trabalhassem e até ajudassem a comprar essas coisas todas para mim, ainda assim, quando penso nisso hoje, e percebo o tanto de coisas que eu sempre ganhei, enxergo o quanto esses pequenos gestos forjaram em mim o que eu sou. 

Trago, nítida, a visão destes dias, porque sei que o valor não está nas coisas que eles compravam, e eles compravam o que podiam, mas no gesto de preservar em mim o encantamento que toda a criança merece ter infância.

Lá pelos 5 ou 6 anos aconteceu de eu acordar quando minha mãe entrou no quarto para colocar os chocolates no ninho. Ela entrou no escuro, na ponta dos pés, mas o saco de papel fez barulho, eu acordei. Lembro-me da sensação ao pensar “eu sabia”, depois, do espanto ao ver o tamanho do pacote que era esvaziado no meu ninho, e então percebi o cuidado que ela tentava ter para que eu não acordasse. E eu fingi que dormia. No outro dia acordei e fiz exatamente como nos outros anos, comi meu chocolate na cama, depois levantei feliz da vida.  Nunca contei a ela que a tinha visto fazendo as vezes do coelhinho. Sequer recordo quando foi que esta história de coelhinho começou a mudar. Quando eu deixei de fazer um ninho? Não consigo me lembrar, mas sei que ainda demorou, pois o coelhinho era minha fábula favorita e eu gostava de imaginá-lo em sua toca, com seus óculos redondos e seu macacão, com sua esposa-coelha e seus filhotes, todos embalando chocolates de páscoa.

Só sei que um dia a ilusão precisou ser desfeita, provavelmente porque eu já estava crescida, e crescer mata muitas coisas na gente.

Mas guardei bem guardado, numa das minhas caixinhas brancas da memória, enrolada com fita de cetim, a significância desses pequenos gestos, dos afagos que me moldaram quando criança.

Talvez por isso, até hoje a páscoa dos chocolates ainda me encante. E os ovos de açúcar? Esses eu nunca mais vi. Se os encontrasse à venda certamente compraria, não para comer, que eles são açúcar puro e eu nem gosto de açúcar, mas os guardaria na minha melhor prateleira. Os ovos da páscoa da minha infância.



[Andrea de Godoy Neto]